Just a Kiss

You don’t ask for a kiss; you steal it.

Essa era a frase que ecoava na mente dela e que marcara para sempre aquele momento. A noite, o frio, a festa, o fogo. E ele. Os olhos gelidamente azuis que calorosamente a fitavam desde longe, desde o primeiro momento. Aquele olhar especial, aquele olhar encantado. Não, ela não sentiu algo especial por ele desde o princípio, porém foi impossível não notar o quão contemplativo ele parecia ao estar diante dela pela primeira vez. Era um olhar diferente de todos os que já recebera de outros homens; era um olhar que ela notava mais profundamente interessado.

Sempre atencioso, sempre preocupado, sempre prestativo. E ela apreciava isso. Em uma época em que muitos homens temem agir com cavalheirismo e serem erroneamente considerados machistas, demonstrar tanta preocupação era ainda mais admirável. Isso a cativava. E ele sabia quando ser engraçado, era divertido, politicamente incorreto, espontâneo. E isso também a encantava. Ele, porém, era tímido. E ela também o era. Olhares desencontrados, olhares flagrados por acaso, olhares que fugiam ao serem notados. Olhares que por tímidos que eram, fugiam um do outro. A fuga eterna, contudo, era impossível. E era impossível porque em algum momento algum movimento teria de ser feito.

Na varanda soprava o vento frio. Ele em uma extremidade; ela, em outra. Em meio àquelas várias pessoas, a todo momento, seus olhares se encontravam. Será que ela está pensando em mim?, ocorria a ele. Ocasionalmente ele piscava, brindava de longe. E ela ria. Ria nervosa, ria algo encabulada. Não estava acostumada ao que parecia ser a corte. E fugiu. Fugiu do frio, fugiu daquele olhar cativante que de longe insistia em contemplá-la. Fugiu para junto do calor do fogo no salão vazio e às escuras, para a solidão diante o tremeluzir das chamas que ardiam na lareira. Será que ele está pensando em mim?, ocorria a ela. E enquanto permitia-se estar absorta diante o fogo, sentada sobre as próprias pernas e nervosamente alisando a saia vinho com as mãos, não ouviu que passos se aproximavam. Era ele. E ele se sentou ao lado dela. Enfim estavam apenas os dois; sem ninguém que pudesse interferir, sem que ninguém pudesse testemunhar.

Um demorado entreolhar. Era a primeira vez que se encaravam tão demoradamente, tão sinceramente. Era como se tentassem decifrar cada pensamento, cada intenção do outro. Já não era mais possível lutar com os sentimentos, já não possível omitir um franco sorriso de satisfação e admiração diante o outro.

– Será que eu posso te beijar? – ele perguntou.

– Não se pede um beijo, rouba-se… – murmurou ela, encantada, ostentando um discreto, porém malicioso, sorriso.

Ele se aproximou mais, como sempre cuidadoso, atencioso. E, pela primeira vez, seus lábios se tocaram. Demorada e apaixonadamente. Afastaram-se e, por mais alguns instantes, contemplaram-se plenos de alegria por confirmarem enfim que tinham seus sentimentos correspondidos.

– Acho que lhe devo algo… – ela sussurrou.
Mais um beijo. Mais um beijo demorado e apaixonado, sincero, pleno. E tornaram a se afastar.

– Melhor voltarmos à festa… Não quero que pensem… – ela deixou em suspenso.

– Nem eu… – concordou, sorrindo regozijado.

Naquele momento, apenas um beijo lhes bastava, apenas uma resposta procuravam. Eram, um para o outro, exatamente o que haviam procurado por toda a vida. Ainda não era hora de ir tão longe, não havia nenhuma necessidade de apressarem as coisas. Naquele momento, apenas um beijo lhes bastava.

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