Extranjera/Foreigner – Parte I

*TRILHA SONORA AO FIM DO TEXTO.

Fui morar no México quando tinha sete anos. Papai tinha morrido havia pouco tempo. Embora tenhamos nos radicado em Santa Catarina, ele era um militar francês a serviço na embaixada da França no Brasil e foi sequestrado e executado por um grupo comuno-terrorista que desejava, violenta e imbecilmente, fazer do Brasil uma nova Cuba. Eu e meu irmão, um ano mais novo que eu, já no México, estudamos toda a Primaria com professores particulares. Para a secundária, fui matriculada em um internato, que, até então, era exclusivo para meninas. Minha turma foi a última exclusivamente feminina e meu irmão, um ano depois de mim, ingressou no Instituto Acadêmico Santa Elena.

Lá, sempre fui a melhor. Em qualquer atividade com a qual me envolvesse, teria o destaque. Aos onze anos era fluente em quatro línguas: espanhol, francês, alemão e português; era excelente em inglês, idioma no qual logo também me tornei fluente. Artes, xadrez, afazeres domésticos, tênis, ciências exatas, ciências humanas; eu era líder reconhecida da geração, a melhor representante das formandas do verão 1979. Disso, obviamente, orgulhava-me muito. Eu tinha potencial e o conhecia muitíssimo bem.

Mas lá também sempre fui a mais bela. E isso não era exatamente um problema enquanto eu estava lá… Tinha apenas 11 anos quando ingressei no Santa Elena e apenas havia alunas lá. Mesmo depois, não havia rapazes em séries mais avançadas que a minha. Havia muitos outros descendentes de estrangeiros, ainda assim, eu era a mais evidentemente estrangeira. E logo desabrochei e já não havia como negar a minha feminina beleza.

Bem, eu sempre fui a contradição.  Não é muito comum que a garota bela, popular e desejável seja também a mais inteligente e de mais firmes propósitos e decisões. Mas essa era eu, essa sou eu e nunca ignorei isso… Eu tinha sonhos, expectativas. Ser bela me fazia querer ser reconhecida pela beleza, ser inteligente fazia-me querer o reconhecimento por mérito, competências intelectuais. Ser bela e inteligente me fez querer poder, fez-me querer liderar. Foi assim que percebi que queria estudar Economia.

Obviamente, não é uma das carreiras mais tipicamente femininas. Nos anos 70, menos ainda. Mas isso não me preocupava, não me assustava. Eu sabia que seria boa, que faria o meu melhor e isso me bastava. Ademais, embora estudasse em um colégio originalmente feminino, tínhamos aulas de Economia e Política, afinal, dali poderiam sair primeiras-damas, esposas de grandes empresários e era importante que esse grupo não fosse meramente figurativo quando deixasse o ambiente escolar… E eu? Bem, embora eu almejasse ser uma esposa amada, apaixonada, culta e elegante, eu queria mais… Ainda que pretensões políticas jamais tenham dominado meus pensamentos, minha grande inspiração era Margaret Thatcher, feminina, com personalidade extremamente forte e líder de um dos países mais importantes do mundo…

Mamãe assustou-se, quando, ainda aos meus quinze anos, declarei que queria estudar em Harvard. “Aquele não é um ambiente adequado a uma moça tão delicada e feminina como você, Cristina”, foi o que disse ao ouvir minha primeira manifestação. Quando demonstrei meu interesse por Economia, seu mundo pareceu desmoronar. “Isso não é para mulheres, Cristina! Por que não as artes, que há tanto estão em nossa família?” perguntou-me, como se eu não pudesse querer mais… Não lhe parecia natural que eu quisesse desfrutar com plenitude de minha privilegiada inteligência. E eu achava tudo aquilo absurdo. “Eu sei o que quero, mamãe. E o que quero é ser uma líder no mundo. O que quero é não ser uma a mais. Eu quero ser reconhecida além dos muros do Santa Elena. Eu sou boa em tudo o que faço. No que escolhi, serei a melhor, farei o melhor e por isso quero o melhor que posso ter”

Depois de meu desabafo, mamãe apenas encarou-me indiferente e impassível, em sua típica frieza. Tinha bons sentimentos, mas não os demonstrava com freqüência. Fora muito carinhosa em minha infância, todavia, afastara-se na adolescência. Não sei se pelo internato, não sei se pelo nascimento de meus meios-irmãos, não sei se por eu ter mudado. Estava atordoada, eu tinha certeza, mas eu não mudaria de idéia. Sempre fui obstinada, não desistiria. E contava com algum apoio…

Minha melhor amiga e companheira de quarto no Santa Elena, Victoria, filha de uma de nossas professoras de Literatura Hispânica e de nosso professor de canto, era a que mais demonstrava entusiasmo por minha meta. “Vou ficar tão feliz o dia que vir minha amiga em listas do tipo ‘mais bem sucedidos do mundo’ e desbancando um montão de homens com sua inteligência inquestionável e com sua beleza estonteante!”, repetia ela, sempre me animando, motivando-me a perseguir meu sonho, minha vocação.

A outra pessoa de quem tive imediato apoio foi Gregório, meu padrasto. Ele é quatro anos mais novo que mamãe e casaram-se três anos após a morte de papai. De fato, é como um pai para mim, isso desde quando ainda cortejava mamãe… Sempre foi respeitoso, atencioso, carinhoso e sempre o quis como ao meu próprio pai… Ele considerou fantástica a minha idéia de ir para Harvard, acreditava em meu potencial e na firmeza de meu propósito. Prometeu-me auxílio com mamãe e assim o fez. Em pouco tempo, para minha surpresa, a Sra. María Carmen não falava em outra coisa que não ver a sua primogênita como membro do corpo discente de uma das mais prestigiadas universidades do mundo.

_ Daqui duas semanas viajaremos para os Estados Unidos novamente…  Apesar de aqui não lecionarem alguns tópicos intrínsecos à América Anglo-Saxônica, Cristina obteve uma altíssima pontuação no SAT e foi convocada para entrevistas para as universidades da Ivy League as quais candidatou-se… –  contava mamãe, esfuziante, a cada uma de suas amigas.

Reconheço que me fazia feliz perceber mamãe orgulhosa por mim e empenhada para que eu atingisse minha meta. Embora de fato eu quisesse Harvard, também me havia candidatado a Princeton e Yale, como garantia. E para ser admitida por qualquer uma dessas, eu tinha de me submeter à entrevista com um membro do corpo docente de cada uma das instituições. De todas as formas ao meu alcance, eu deveria mostrar o quanto eu merecia uma vaga. Intelectualmente e moralmente não seria difícil, mas mamãe temia outras questões…

Thaís Gualberto

*** continuará ***

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5 comentários sobre “Extranjera/Foreigner – Parte I

  1. Bianca Carvalho disse:

    Meodeos, quero a continuação disso!!
    Meu único ponto é: essa personagem não é perfeita demais, não? Acho difícil se identificar com uma pessoa tão foda em tudo, beirando a arrogância. Sei lá, opinião. =P
    Eu gosto MUITO dessa coisa da mulher de antigamente querendo trabalhar e estudar em ambientes tipicamente masculinos, da relação dela com a mãe (que aparentemente queria uma filha mais tradicional) e tal. Quero saber o que acontece com ela!

    Curtido por 1 pessoa

    • Thaís Gualberto disse:

      Na verdade Cristina é uma contradição a vários estereótipos, como: ela é a garota bonita e extremamente feminina, mas também superdotada e com vocação para liderar. Eu diria que ela foi geneticamente premiada rs Ainda que não haja milhões como ela no mundo, não duvido que haja alguma… Mas nos acostumamos a ver pessoas bonitas sendo preteridas quanto à capacidade intelectual, a ver mulheres que acreditam que não ter vaidade e ser muitas vezes até mesmo masculina é que faz com que tenhamos a cchance de conseguir um lugar ao sol… Mas Cristina é diferente. Tem plena consciência de sua capacidade, não está disposta a abrir mão de sua feminilidade em troca de absolutamente nada; ela aprecia tanto cultivar sua beleza como aprimorar o intelecto… Aliás a questão nem é se identificar com ela, mas sim torcer por ela… Pois ser alguém como ela é muito mais difícil do que os outros podem pensar. Bem, eu particularmente acredito que ela é o tipo de pessoa que em um primeiro contato podemos considerar arrogante, mas ao conhece-la bem, passamos a admirá-la, sobretudo pela força interior, pela determinação que ela sempre demonstra.

      E a vida dela, apesar de tudo, não chega a ser um mar de rosas… Perde o pai na infância, vai comer o pão que o diabo amassou na faculdade – tanto por ser uma mulher bonita inteligente como por ser uma liberal-conservadora em meio a socialistas -, longe da melhor amiga em um tempo sem internet, com uma relação complicada com a mãe… Mas a intenção é exatamente essa: que a perfeição dela instigue ao próximo (seja este leitor ou personagem), afinal o que impede alguém de ter tais características conjugadas? E a história é muito sobre isso, sobre como ela lida com a pressão dela sobre ela própria, como os outros lidam com a presença dela a seu redor, como ela lida com a hostilidade dos que a temem… As crônicas “Enchanted” e “Style” também se referem a essa personagem, mais especificamente ao momento em que ela descobre que o amor é possível para ela…

      Acho que você irá gostar de acompanhar a trajetória de Cristina, dona Bianca!

      Beijoos!!

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